quinta-feira, 10 de março de 2011

Geração à Rasca

Esta é a Geração do "Já não posso mais!"...



Houve lágrimas nos olhos, ontem no Coliseu de Lisboa. E não foi com o "Clandestino" ou o "Passou por mim e sorriu". Foi com esta que aí está.
Ontem, assisti a um fenómeno com que nunca me tinha deparado. O público inteiro aplaudiu a letra de uma canção. A cada verso, os aplausos ressoavam cada vez com mais força. Não foi o single, não foi aquela tão animada, foi esta canção que aí está.
Os Deolinda resolveram abandonar metáforas e recursos poéticos. Nesta letra, não há segundos sentidos. E, por isso, eu também vou deixar de lado a estética da escrita para dizer o que penso.

A minha geração é, provavelmente, a mais bem qualificada de sempre em Portugal. Nós estudámos, e estudámos mesmo, para podermos ser aquilo que queremos ser. Não é capricho. É querer fazer bem feito, é não querer ir para o mercado de trabalho à toa, é querer chegar às empresas mais bem preparado. As empresas deviam agradecer isto: haver gente nova, de ideias frescas, pronta para arregaçar as mangas a trabalhar. Esta gente nova devia ser compensada e não castigada.
Esta gente nova gosta de viajar, ir para os copos e tem altas ambições. "Querem logo ser chefes, deviam saber o que é lavar escadas". Lavarei escadas se isso for necessário para alimentar filhos, mas não, não quero saber o que é lavar escadas. Porque eu gosto é de fazer outras coisas e, por isso mesmo, é que fui estudar essas outras coisas. Uma licenciatura não é uma tarefa assim tão fácil de concluir.
Quando saímos da faculdade, depois de 4 anos de aprendizagem em cima, o que nos espera são estágios "curriculares". Ora, como o próprio nome indica, um estágio CURRICULAR faz parte do currículo da faculdade e tem de ser feito em conjunto com o estabelecimento de ensino. Fazer um estágio depois de curso feito, sem que a faculdade o exija, e não ser remunerado, não é uma coisa "curricular". Como nos avisava constantemente o professor de Deontologia, trabalhar sem receber tem um nome: é escravidão. E, como dizem os Deolinda, estamos num país onde "para ser escravo é preciso estudar". Um estágio, mesmo que profissional e remunerado, é um momento de formação, é para aprender. Por isso, uma empresa que abra estágios porque precisa de mão de obra, está a agir de má fé. Muitas vezes, até exigem uma data de conhecimentos e disponibilidades. Nós, com os conhecimentos, oferecemos a nossa disponibilidade. E o pânico é tal que nem pensamos naquilo que ganhamos de volta. Uma vez vi um anúncio de uma revista online regional de um sítio qualquer por trás do sol posto a pedir "estagiários não-remunerados" (sim, já chegámos a esta falta de vergonha). E eu pensei: mas que raio vou eu aprender numa revista online regional de onde Judas perdeu as botas? O que ganho em troca? Nada.
Depois da fase dos estágios, lá conseguimos um primeiro trabalhinho pago. Pago como? A recibos verdes, obviamente. Após um primeiro ano de isenção de impostos, começamos então a saga de dar uma quantia absurda ao estado. São 160euros para a segurança social. Mesmo que só se ganhe 300euros. Como um recibo verde é um "trabalhador independente", não há cá ordenados mínimos. Nem há subsídios de férias. Nem de Natal. Nem décimo-terceiro mês. Nem baixa. Nem coisa nenhuma. E porquê toda esta falta de direitos? Porque, segundo a lei, também não temos muitos deveres.
No mundo real, isto é uma mentira bem transparente. Um recibo verde não deve ter chefes, horários, locais de trabalho. O recibo verde é para o trabalhador independente, que toma conta de si. Mas o que acontece é que estamos todos a passar recibos verdes e a responder a chefes, que nos exigem presença diária no local de trabalho e cumprimento de horários. Isto é ilegal. E estamos todos coniventes. Foi-nos dada a possibilidade de denunciar a empresa. Até nos perdoam a dívida à segurança social! Caramba, e se nós temos provas! O recibo passado com a mesma quantia para a mesma empresa há meses e meses. Os emails com a divisão de horários. Os emails com as exigências. Mas e se os denunciarmos? Contaram-me de uma rapariga que denunciou a Visão. Ganhou. A Visão pagou uma multa e a rapariga nunca mais pôs os pés na Edimpresa. Não temos proteção. Ou temos um novo emprego à nossa espera (o que, com esta taxa de desemprego, não é coisa provável) ou a única vítima de um processo legal somos nós mesmos. Quem se lixa, como toda a gente sabe, é o mexilhão.

Tenho uma amiga que trabalha na redação dum grande portal de notícias. Foi a melhor aluna da faculdade do curso de jornalismo. É a melhor jornalista que conheço. Trabalha há 4 anos a recibos verdes. Não tem tempo para ganhar dinheiro noutros lados, os seus dias (incluindo fins-de-semana) são dedicados àquele trabalho. Ela e os colegas pediram que a sua situação fosse regularizada: um contrato já seria obrigatório há muito tempo. Não lhes foi concedido o cumprimento da lei, que eles não tinham sequer de ir pedinchar. Com o novo código contributivo para a Segurança Social, foram então pedir mais 50euros para cada um (não soa a esmola?). Disseram-lhes que não, que não havia dinheiro, que até teriam de mandar gente embora. Dias depois, foram coagidos a ir à festa de Natal da empresa (que é das maiores do país). Tinham de mostrar que eram uma equipa, que também faziam parte, apesar de se sentirem outsiders. No meio da festa, ali estavam eles, sentadinhos, a ouvir o patrão dizer que o fecho de um negócio ia permitir dar um prémio de 1200euros a cada empregado. Palminhas, sorrisos, e o silêncio de centenas de pessoas. É que os recibos verdes não são empregados da empresa, por isso, nada de prémio para eles.

Tenho outra amiga que trabalha na mesma produtora há mais de três anos. Recibo verde. Ganha menos agora do que ao início. Com o fim do ano de isenção, passou a ter de tirar uma fatia para a segurança social. Depois, outra fatia para o IVA. Este, que devia ser COBRADO à empresa, é-lhe retirado do seu ordenado. Com o pânico do que aí vem de segurança social, foi pedir que revissem a sua situação (já que tinham sido feitos contratos a colegas seus). A chefe ainda teve a lata de fazer o papel de dama ofendida, ela que elogiava tanto o seu trabalho e tanto apostava nela. Ela sentadinha no seu gabinete com candeeiros de 100euros que nunca foram acesos.

Pois é, meus senhores. Elogios não pagam alugueres de casa. Temos quase 30 e queremos mesmo sair da casa dos pais. Queremos seguir a nossa vida. Queremos casar e ter filhos e perpetuar a espécie (será que vale a pena?).
Não nos venham dizer que não há dinheiro. Depois de o programa onde trabalho ter posto a RTP2 a aparecer nos gráficos de audiências, a RTP cortou o nosso orçamento em 12%. Qual é a primeira coisa que se faz? Cortar os ordenados em 12%, claro. A RTP não tem dinheiro, dizem. Não tem? E os milhares que se pagam a pessoas como o José Rodrigues dos Santos, que maior parte das vezes nem deve pode ir fazer o seu trabalho porque tem de estar a escrever remakes do Dan Brown? E o iPad que o meu professor de TV na pós-graduação, trabalhador da RTP, ia exibir para a aula? A afirmar, ainda por cima, que aquilo era revolucionário, porque as pessoas iam usá-los no autocarro. Meu senhor, as pessoas que andam de autocarro não podem comprar iPads! E a contar como a RTP organizou o encontro mundial de broadcasters todo cheio de hors d'oeuvres? Há dinheiro, sim! Normalmente não vai é para quem mais trabalha.

Aqueles aplausos no concerto fizeram-me perceber com clareza de que estamos todos fartos. Estamos mesmo fartos. Até queremos lutar. Mas lutar contra quem? Contra o governo que não fiscaliza as empresas e não protege os seus trabalhadores? E vamos deitá-lo abaixo para ir para lá um mais à direita que ainda vai fazer pior? Contra as empresas chupistas que se apoiam no pânico em que estamos para pôr a trabalhar gente em terríveis condições e ainda ter a atitude de quem está a fazer um grande favor? Contra os mercados internacionais no geral? Contra os especuladores da bolsa, que dão cabo disto tudo sem sequer lidarem com dinheiro real? Contra os nossos pais que nos fizeram acreditar que, se estudássemos muito, íamos ter uma boa vida? Lutamos contra quem?

O que andamos a fazer é a fugir. Vamos embora daqui, porque aqui ninguém nos dá valor. Muitas vezes, sabemos mais que o conjunto geriátrico que possui as empresas, mas temos de andar a lamber-lhes as botas. Fora daqui ainda há sítios onde as empresas sabem que sem trabalhadores, não funcionam. Que precisam deles. Que, para os terem, têm de lhes pagar. Que valorizam o mérito, que estão atentas e premeiam quem faz bem.

Só faria efeito se nos juntássemos todos e todos recusássemos trabalhar em certas condições. Mas isso não existe. Se eu recusar, há 20 atrás que aceitam e ainda perguntam quanto é preciso pagar. Porque estamos em pânico. Porque a luta não nos dá dinheiro com que sair da casa dos pais, com que conhecer o mundo, com que comprar livros e música e filmes.

E é por medo que vamos continuar todos aqui parados, a tentar descobrir onde podemos ir buscar mais uns euros, a pedir licença aos pais para ficar ali só mais um bocadinho, só para ver se no mês que vem ainda tenho trabalho. Vamos continuar todos aqui, precários, a ser parvos. Só à espera do próximo avião.



Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal.
Nós, que até agora compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança qualitativa do país. Estamos aqui, hoje, porque não podemos continuar a aceitar a situação precária para a qual fomos arrastados. Estamos aqui, hoje, porque nos esforçamos diariamente para merecer um futuro digno, com estabilidade e segurança em todas as áreas da nossa vida.
Protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.
Caso contrário:
a) Defrauda-se o presente, por não termos a oportunidade de concretizar o nosso potencial, bloqueando a melhoria das condições económicas e sociais do país. Desperdiçam-se as aspirações de toda uma geração, que não pode prosperar.
b) Insulta-se o passado, porque as gerações anteriores trabalharam pelo nosso acesso à educação, pela nossa segurança, pelos nossos direitos laborais e pela nossa liberdade. Desperdiçam-se décadas de esforço, investimento e dedicação.
c) Hipoteca-se o futuro, que se vislumbra sem educação de qualidade para todos e sem reformas justas para aqueles que trabalham toda a vida. Desperdiçam-se os recursos e competências que poderiam levar o país ao sucesso económico.
Somos a geração com o maior nível de formação na história do país. Por isso, não nos deixamos abater pelo cansaço, nem pela frustração, nem pela falta de perspectivas. Acreditamos que temos os recursos e as ferramentas para dar um futuro melhor a nós mesmos e a Portugal.
Não protestamos contra as outras gerações. Apenas não estamos, nem queremos estar à espera que os problemas se resolvam. Protestamos por uma solução e queremos ser parte dela.
Exmos. Srs.,
O «Protesto da Geração À Rasca» surgiu de forma espontânea, no Facebook, fruto da insatisfação de um grupo de jovens que sentiram ser preciso fazer algo de modo a alertar para a deterioração das condições de trabalho e da educação em Portugal.
Este é um protesto apartidário, laico e pacífico, que pretende reforçar a democracia participativa no país, e em consonância com o espírito do Artigo 23º da Carta Universal dos Direitos Humanos:
1. Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego.
2. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual.
3. Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de protecção social.
(…)
Por isso, protestamos:
-Pelo direito ao emprego.
-Pelo direito à educação.
-Pela melhoria das condições de trabalho e o fim da precariedade.
-Pelo reconhecimento das qualificações, competências e experiência, espelhado em salários e contratos dignos.
Porque não queremos ser todos obrigados a emigrar, arrastando o país para uma maior crise económica e social.
Segundo o INE, o desemprego na faixa etária abaixo dos 35 anos corresponde hoje à metade dos 619 mil desempregados em Portugal. A este número podemos juntar os milhares em situação de precariedade: “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, estagiários, bolseiros e trabalhadores-estudantes.
No que concerne à educação, o acentuar das desigualdades no acesso ao ensino limita as oportunidades individuais. Milhares de pessoas são impedidas de ingressar ou obrigadas a abandonar os seus estudos. Outras ainda vivem situações de indignidade humana para conseguirem prosseguir os seus percursos académicos.
Não negligenciamos os problemas estruturais, domésticos e internacionais, que afectam a vida de muita gente na procura e obtenção de emprego. Queremos alertar para a urgência de repensar estratégias nacionais e não nos resignamos com os argumentos de inevitabilidade desta situação. É com sentido de responsabilidade que afirmamos que, sendo nós a geração mais qualificada de sempre, queremos ser parte da solução.
No dia 12 de Março, pelas 15 horas, convidamo-lo a estar presente na Avenida da Liberdade em Lisboa ou na Praça da Batalha no Porto, no Protesto da Geração à Rasca cujo manifesto abaixo citamos.

João Labrincha
Paula Gil
Alexandre de Sousa Carvalho
António Frazão

Manifesto

Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal.

Nós, que até agora compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança qualitativa do país. Estamos aqui, hoje, porque não podemos continuar a aceitar a situação precária para a qual fomos arrastados. Estamos aqui, hoje, porque nos esforçamos diariamente para merecer um futuro digno, com estabilidade e segurança em todas as áreas da nossa vida.

Protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.

Caso contrário:

a) Defrauda-se o presente, por não termos a oportunidade de concretizar o nosso potencial, bloqueando a melhoria das condições económicas e sociais do país. Desperdiçam-se as aspirações de toda uma geração, que não pode prosperar.

b) Insulta-se o passado, porque as gerações anteriores trabalharam pelo nosso acesso à educação, pela nossa segurança, pelos nossos direitos laborais e pela nossa liberdade. Desperdiçam-se décadas de esforço, investimento e dedicação.

c) Hipoteca-se o futuro, que se vislumbra sem educação de qualidade para todos e sem reformas justas para aqueles que trabalham toda a vida. Desperdiçam-se os recursos e competências que poderiam levar o país ao sucesso económico.

Somos a geração com o maior nível de formação na história do país. Por isso, não nos deixamos abater pelo cansaço, nem pela frustração, nem pela falta de perspectivas. Acreditamos que temos os recursos e as ferramentas para dar um futuro melhor a nós mesmos e a Portugal.

Não protestamos contra as outras gerações. Apenas não estamos, nem queremos estar à espera que os problemas se resolvam. Protestamos por uma solução e queremos ser parte dela.

Onde Comparecer:

Braga – Avenida Central, junto ao chafariz

Castelo Branco – Alameda da Liberdade (Passeio Verde)

Coimbra – Praça da República

Faro – Largo S. Francisco

Funchal – Praça do Município

Guimarães – Largo da Oliveira

Leiria – Fonte Luminosa

Lisboa – Avenida da Liberdade > Praça Luís de Camões

Ponta Delgada – Portas da Cidade

Porto – Praça da Batalha > Praça D. João I

Viseu – Rossio, em frente à Câmara Municipal

VIVA PORTUGAL, VIVA À LIBERDADE!

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